Lembrava-se, como se rotina fosse, de ter descido aquela rua molhada, que terminava na única paragem de autocarro existente em Tapeus, com um saco de pano grosso pela mão, e lá dentro as posses reunidas em treze anos de vida: uma fotografia, já amarela, dos seus pais e três irmãos, dez escudos, e a morada da casa onde iria trabalhar, em Coimbra, durante trinta e quatro anos.

Agora de regresso, carregava consigo o que de mais precioso tinha amealhado em horas infindáveis a esfregar azulejos, a limpar o nariz a crianças doentes, e a cozinhar jantares e almoços, suando de frente para o fogão. Naquela trouxa desengonçada, estavam misturadas o que, aos seus olhos, eram valiosas pepitas de ouro: sementes, de uma diversidade extraordinária, que transformar-se-iam nas mais belas flores alguma vez plantadas em Portugal, de norte a sul, que Rosa havia roubado, por onde quer que passava. O seu jardim, um descampado sujo e sem vida, na casa velha e descaracterizada herdada dos seus pais, estava prestes a transformar-se no seu merecido paraíso terreno.

O seu corpo não mudara muito, desde as madrugadas em que, miúda, pastoreava descalça, toda a fria e ventosa Serra do Sicó, acompanhada somente pela própria voz, em cantos esganiçados que ninguém sabia onde aprendera, tal era o seu teor beato e quão pagã aquela aldeia. Magra, rija, de cabelo escuro, atado num carrapito, e uns olhos azuis, puros, límpidos e lívidos, como quando ali abria o céu, a seguir a uma valente chuvada.

Tal energia e alegria ingénuas, de quem não conhece mais nada, valeram-lhe o amor da família Cordeiro, a quem dedicou todos os minutos em que estava acordada. Pelo seu colo passaram três gerações, a última das quais se limitava às netas da Sra. D. Maria Emília: duas gémeas, anafadas, de caracóis fartos e tez rosada, baptizadas de Carmen e Leonor, mas a que carinhosamente chamava de “as minhas meninas”.

Ao voltar ao local que a viu nascer, lançou-se à terra com rapidez e afinco, a fim de ver cumprido o sonho de ter um espaço neste mundo só seu, e que este fosse de uma vaidade exagerada, compensando a pobreza e sobriedade por que se prezou até aí.

Com a quarta-classe inacabada, sabia os mais ínfimos pormenores sobre cada espécie que iria florescer das suas sementes: as begónias amarelas, brancas e rosadas, a plantar em Janeiro, em vasos largos e baixos; os jacintos azuis, que deitavam uma fragrância intensa na Primavera; os crisântemos, em forma de origami; as dálias, que tinha visto serem atacadas na quinta da Sra. D. Filomena pela praga do aranhiço vermelho, sugando-lhes a seiva e transformando a sua cor lilás num tom murcho e amarelado; as petúnias, que já se empoleiravam umas nas outras; as calêndulas, que imitavam os girassóis no seu ritual matinal; as açucenas, de tão brancas que faziam lembrar um vestido de noiva esguio; as bocas-de-lobo, as estrelas do Egipto, os lírios e os gladíolos…

Sentia-se realizada com cada semente lançada à terra. Mas ao mesmo tempo também se apercebia da sua faceta atrevida e chica-esperta, quando recordava todas as propriedades que invadiu, todos os muros que saltou, às horas mais estapafúrdias, e não conseguia evitar as lágrimas a pingarem-lhe pelo queixo abaixo.

O que ela não planeava era voltar a encontrar-se com a Sra. D. Maria Emília tão cedo, muito menos em Tapeus. Mas numa terça-feira de Outono, qualquer programa era bom para silenciar os gritos mimados da Carmen e da Leonor, e a Sra. D. Maria Emília já teria tema de conversa para os próximos lanches com as amigas, a contar como e onde viviam a empregadas.

A Rosa, com as suas galochas carcomidas na biqueira, cantarolando, de sacho e balde na mão, imediatamente os deixou cair e se calou, ao ver “as suas meninas” a correr desalmadas pelo seu portão adentro, seguidas da antiga patroa. Ficou petrificada. Naquele momento queria ser uma das suas sementes, e enfiar-se num dos buracos que tinha acabado de cavar. Estavam ali todas as provas do crime, todos os souvenirs trazidos de casa da Sra. D. Celeste, da Sr. D. Hermínia… E aquele jardim já crescido não passava despercebido.

- “ROSA!”, exclamou a antiga “sua senhora”, como lhe chamava. “O que é isto, mulher? Não estou a acreditar no que vejo.”

E a cada palavra, a Rosa mais encavacada ficava.

- “É realmente i-na-cre-di-tá-vel! Nunca imaginei, que aqui no fim do mundo, tivesses uma coisa tão bonita e vistosa, como esta! Parabéns! Deves ser a inveja das vizinhas, não? Não queres voltar lá a casa, de vez em quando, e tornar o meu jardim mais parecido com o teu? Também já estamos com saudades tuas!”

E o silêncio da Rosa rompeu-se, ao despertar em si um misto de vergonha imensa com orgulho, de quem lhe elogiam os filhos.

“Oh menina, isto aqui por estes lados não tem a poluição lá da cidade, com os carros, os fumos… e aquela fábrica de bolachas de manteiga também sai de lá muita porcaria para o ar… olhe o meu vizinho, que dantes tinha a venda ao pé do cruzamento, o cunhado trabalha na firma da reciclagem e vê que o papel e o vidro e os plásticos, vai tudo para o mesmo sítio, sabia? Isso e os incêndios no Verão, não dá para fazer crescê-las viçosas lá como aqui.”

E este papaguear teria sido até Rosa perder o fôlego, não fossem as crianças terem começado a brincar com o gato vadio, o Tito, e a Sra. D. Emília ter ido ao seu auxílio num piscar de olhos.

Nos meses seguintes, Rosa, para se redimir e dormir descansada à noite sem pensar naquele episódio, ia uma vez por semana plantar as suas sementes ao jardim dos Cordeiro.

O mesmo adubo, as mesmas técnicas, até o mesmo cantarolar. Mas fosse castigo ou falta de jeito, a verdade é que este estava muito aquém do original. As flores não eram arrebitadas, ficavam-se nuns tons pastel, parecia que não conversavam umas com as outras, e que nem as abelhas por ali circulavam.

E nisto andou a Rosa, até ao fim dos seus dias, sem saber que a solução vinha do seu próprio mal: de tão sentidas, tão carregadas, serem as lágrimas que chorava quando punha uma semente à terra no seu quintal, tornavam-se no elixir da vida e na resposta para a tal exuberância daquele cantinho em Tapeus, que até ao fim dos seus dias, sem sucesso, tentou imitar.

© 2018 by Carolina Mesquita